sábado, 31 de março de 2012

Stalin foi um bandido, um assassino psicótico. Eu estou falando a respeito do instinto de sobrevivência, sobre a vontade de viver. Eu prefiro um malandro ardiloso a um caxias consciencioso a qualquer hora do dia ou da noite. Talvez um malandro não jogue segundo as regras, mas ao menos tem espírito. E onde houver homens com espírito haverá esperança para o mundo (Paul Auster)

Bruno quebrou o braço direito ao cair da bicicleta, esta tarde. Eu acabava de chegar ao estacionamento da Câmara, para a palestra, quando recebi telefonema de Simone avisando do acontecido. Pedi desculpas à secretária, que acabara de chegar, e voltei para casa para levá-lo ao Pronto Socorro. Fratura, disse o médico após rápida conferida no Raio-X. Pelo jeito dói um bocado, pelo semblante de meu filho mais velho, cujo corpo banhei no começo da noite. Está um homem, meu filho. Mesmo quando chora.

Foi absoluto sucesso, a reunião desta tarde, com a palestra sobre Ariano. Pelo que contei, trinta e quatro pessoas, com alguns estudantes de História, Pedagogia, Letras e até uma de Turismo. Unisal, Unip e Univap presentes. Civile leu Os Velhos Velhos, um dos textos do Poemas Jordanenses. Elogios, parabenizações, congratulações e comentários. Ao final, o assédio foi grande, a ponto de eu ter que pedir licença para me dirigir à sala onde se servia o pequeno coquetel. Pensei em fazer uma introdução de desagravo em defesa do nome da Academia, mas desisti. Com o anúncio do Prêmio Monteiro Lobato e da Festa do Pinhão, ficou notória para os presentes a retomada da participação da Casa no desenvolvimento intelectual da cidade. Ponto.

LAC finalmente mandou as notas. Tabulação concluída, e já se tem o resultado da terceira edição do Araucária. Divulgar, entretanto, levará mais alguns dias.

Temos uma acadêmica deficiente visual. Por que não trazê-la para uma atividade com crianças com a mesma característica, por iniciativa da Academia? 

Já se comenta com certa frequência o episódio com a Biblioteca. Por enquanto, comments favoráveis e moções de ânimo.

Adriana me convida para a série Contador de Histórias, no próximo dia 07 de abril, na Ame. Topo. Só falta a confirmação.

Ritelisa confirma a apresentação do Poesia Coxipó, via fone. Pediu para que eu esteja presente no dia de sua entrevista ao Litteratudo. Quer também um release a meu respeito para que ela publique em um jornal local, lá de Sanjosedoscampos. Fala de seus projetos e pede notícias sobre a saúde de Pedrinho. Boa e animosa conversa na noite de sábado.

Quase posso dizer que a Academia, neste momento, sou eu.

Ontem à noite, Simone e eu revimos "Sociedade dos Poetas Mortos", um daqueles filmes para a vida toda. Lindo.

Quatro livros recebidos hoje, sendo três de Civile e um de Segre, este um excelente nome para compor a Casa.

Caminhada entremeada de corrida esta manhã, em volta do campo do Abernéssia, de cerca de quarenta e cinco minutos. As dores que sinto agora são do tipo que doem alegremente.

     

quinta-feira, 29 de março de 2012

Nascer é uma alegria que dói (Eduardo Galeano)

Leonardo em S. Paulo, visita escolar ao Zoológico. Andou excitadíssimo, nos dias, por conta da viagem. Levantamos às seis, com frio e neblina, para que pudesse estar na escola as seis e meia e embarcar. No trabalho, polêmicas e discussões. Ainda a idéia de mudar de Cidade, apesar de tudo. Necessidade de ver o mar. Voltar para Santos, estar em casa, descansar. A dificuldade em comprar casa, o estado de saúde de Simone e sua turbulenta relação com o trabalho, este meu trabalho onde jamais me encontro, as decepções, o cansaço, o desânimo, a certeza de estar em um lugar e a ele não pertencer.  

Algumas situações parecem confirmar a disposição em ir embora.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Por vezes, a maior prova de inteligência é a recusa em aprender (Rubem Alves)

Desprovido de uma amizade cara -eu, que de poucos amigos sempre padeci-, ainda lamento o episódio. Uma pena que um amigo querido tenha conduzido de forma tão infantil uma banalidade. Leonardo, se tivesse mentido, não assumisse o erro que cometeu e ainda quisesse responsabilizar um inocente, levaria uns tapas na bunda. Sérgio talvez tenha precisado em algum momento de uns bons tabefes, em algum momento de sua vida. Quanto à sua avó inglesa, que o criou e de que ele tanto se orgulha, pode até ser que a culpa seja também dela, pois pelo que observo a criação em referência não foi das melhores. Quanto ao uso de ditados populares por parte de meu ex-amigo, cabe aqui um bem conhecido, como resposta: 'quem não te conhece, que te compre'.

Morreu Millôr Fernandes, grande intelectual brasileiro, que deixará uma lacuna enorme em nossa inteligência. Vou acumulando minhas consternações, sabe-se lá até quando.

Nordeste? Pode ser...

Minha avó não era inglesa aristocrática, e sim alagoana e analfabeta. A outra, que mal conheci, portuguesa imigrante e não menos iletrada, até onde eu saiba. Meu pai era alagoano, servente de pedreiro e alfabetizou-se sozinho, para poder realizar o sonho de tirar carteira de motorista. Demorei um pouco a tomar vergonha na cara, confesso, mas não precisei chegar aos 65 anos para aprender a separar o certo do errado, e até hoje me envergonho das vezes em que fui irresponsável, inconsequente, hipócrita, desonesto, covarde, maldoso. Quando um homem chega a esta idade e suas atitudes divergem de seu discurso, então o caso é patológico, carece de ajuda médica. Quaanto a mim, resta mais uma vez lamentar e correr para junto dos meus livros.

terça-feira, 27 de março de 2012

Só escrevo porque escrever me ajuda a pensar (Macedônio Fernandez)

Ronda aos postos e, de quebra, um monte de pinhões. Não fica bem um diretor ficar recolhendo pinhões nos postos de serviço da empresa, mas nada me impede de fazer isto na via pública –ainda mais se for uma viazinha escondida de todo mundo, onde passa um carro a cada quinze minutos. Entre uma e outra vistoria, paro, fotografo, escrevo, leio, atento para o silêncio  –que, como já disse Mia Couto, se constitui na “língua de Deus”.
Não é a planta dos meus pés que se gasta; é a terra que a golpeia.  Não são os sulcos do meu rosto que marcam a passagem dos anos; antes, é o próprio tempo que envelhece. Não é o meu espírito que se acovarda; é a prudência neonata que o detém. Não são os meus olhos que se tornaram indiferentes ao luto; é o mundo que vai perdendo, a cada dia, parte do seu encanto.

Existe no Brasil uma escritora chamada Tatiana Alves Soares Caldas. Professora. Autora de um livro chamado Harpoesia, que publiquei no NPB através de meia dúzia de poemas. Venceu o primeiro Araucária, categoria Contos, com 'Do Limbo', um texto até mesmo chorável. Pois bem. Se o Prêmio Araucária deixar de existir, a culpa vai ser dela, que também é especialista em Agustina Bessa Luís, a da Sibila, e manja muito de Gumarães Rosa, a ponto de escrever sobre ele em revistas especializadas de circúlação nacional. Repito: se o Prêmio Araucária acabar, a culpa vai ser dela, e dos textos belíssimos que ela escreve. Sorte que o julgamento não cabe a mim. LAC vai ter que se virar por lá, porque por mim eu já entregava a ela o primeiro, o segundo e o terceiro lugares em ambas as categorias. Quem vem logo depois dela está muito bem colocado. Tatiana devia parar de participar desse tipo de evento, para poder dar espaço para os demais...

A ideia de criar o Projeto Fala, Escritor! vai deixando de existir por conta da rusga com o Diretor da Biblioteca. Uma pena, ter que recorrer ao rompimento.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Um crítico vale não pela excelência dos seus argumentos, mas pela qualidade de sua escolha (Ezra Pound)

Drese convida para um festival literário em Buenos Aires, em abril do ano que vem. Sem informações ainda acerca de programação ou se o convite é para ser um dos escritores convidados ou apenas para assistir ao evento. Convite feito, convite aceito.

O sonho com a prisão me fez acordar com a cabeça explodindo, o que persiste até agora. Angústia. Ricordi de João Pessoa, o lado oculto e tenebroso. Medo, insegurança, o processo kafkiano -e Simone ao meu lado, inquebrantável.

Li à noite duas edições antigas da Veja, e nada há que mereça destaque. Guardei um artigo de Lya Luft sobre dicionários, que pretendo ler ao longo do dia -que começa envolto em relatórios e mal-entendidos. Lembro do Frei Betto e seu conceito de trabalho, existente nas Cartas da Prisão.

E-mail para o irmão: trivialidades.

Ainda Tabucchi: lembro que no ano passado cancelou sua participação na FLIP em protesto contra o governo brasileiro, que se negou a extraditar para a Itália o terrorista Cesare Battisti, hoje uma celebridade nacional, com direito inclusive a lançamento de livro. Un paese di merda, il nostro, que continua fornecendo muito combustível para a indignação universal. Grazie, Tabucchi.

domingo, 25 de março de 2012

Uma nação que negligencia a percepção de seus artistas entra em declínio. Depois de um certo tempo ela cessa de agir e apenas sobrevive (Ezra Pound)

É salutar aproveitar o silêncio das primeiras horas da manhã de domingo. Barulho, só o latido dos cães e os gritos dos gaviões e demais pássaros que abundam na mata do Morro-Grande, atrás da Casa. Todos dormem. Perdem o espetáculo que desenvolve a manhã, com a visão da neblina que se alterna com a luz do sol e se estende sobre a Cidade, embranquiçando os morros e o céu. Rebrilha sobre os matos de todos os tamanhos e espécies ainda o orvalho da noite, que escorre preguiçoso das folhas como um amante exausto. É linda esta hora jordanense. Mais ainda porque a maioria das pessoas dorme, e a quietude impera, soberana.
Não há facilidades na fruição do romance de Namora. Pelo contrário, é esta uma prosa árida, pedregosa, dificultosa, labiríntica, que desafia o leitor a se perder em seus volteios. Deliciosos, entretanto, os termos belíssimos de um português quase arcaico. As desventuras do pobre Pencas em meio às dificuldades de sobrevivência de uma país agrário e subdesenvolvido onde a educação, certamente, se configurava num luxo. Época de Salazar e sua aversão ao desenvolvimento. Para conhecer Fernando Namora, tenho a impressão de ter começado pelo livro certo.
Hesito em comprar o jornal. Não me apetece  a edição dominical, com pouca notícia e muitos artigos especiais que, em geral, não me interessam. Devo ficar somente com o livro. A Veja, talvez.
Continua o rosário de óbitos relevantes. Antonio Tabucchi, escritor italiano, sessenta e oito anos, especialista em literatura portuguesa, que mudou-se para Lisboa pelo imenso  amor que desenvolveu pelo país, causado sobretudo pela leitura constante de Fernando Pessoa, morreu esta manhã. O problema é que, suponho, não temos tanta inteligência disponível para repor perdas destas relevâncias. A mesma idade de Dalla. Estes mortos têm me golpeado à sorpresa, em pequenos aniquilamentos.
Saímos a catar pinhões pelas ruas chiques e vazias do Capivari. Leonardo e Bruno de bicicleta. Enchemos somente meio saco. O suficiente para darmos, à nossa moda, boas vindas ao outono, que já derruba acintosamente milhares de páginas pelas ruas esburacadas e mal-cuidadas da Cidade. Nada mais jordanense que catar pinhões distraidamente numa manhã silenciosa de domingo, numa breve e pacífica declaração de amor.
Tento convencer Mellie, a cucciolina, que ela foi contratada para cuidar da casa, e não da rua. Não adianta. A cada pessoa ou veículo que passa pelo nosso portão, ela parece ser acometida por uma síncope. Tenho lhe apelidado Dilma.

sábado, 24 de março de 2012

Eu me aventurei na escrita; mas acho que o que li é mais importante do que o que escrevi. Pois a pessoa lê o que gosta –porém não escreve o que gostaria de escrever, e sim o que é capaz de escrever (Jorge Luis Borges)

Concluí a leitura de “Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra”, do moçambicano Mia Couto, muito lido e admirado por aqui –aliás, com toda justiça. Do mesmo autor já havia lido, há alguns anos, a coletânea de contos “O Fio das Missangas”. Dono de uma prosa poética e objetiva, parece não ser adepto da prolixidade que grassa em parte da literatura em língua portuguesa dos dias atuais, especialmente encontrada nos textos de Lobo Antunes, Luandino, Pedrosa e Saramago. Suas frases de efeito (quase versos) causam grande impacto durante a leitura, emprestando ao enredo grande carga de lirismo e magia, o que acaba por fazer dele um escritor para poucos. Sua literatura é, por assim dizer, excludente, acaba por selecionar naturalmente o leitor. Quem lê Isabel Allende, por exemplo (como Simone, às voltas com “Inés de Minha Alma”), terá alguma dificuldade até se ‘localizar’ em Mia Couto e suas africanidades. Apesar das diversas passagens que recolhi para os guardados, não acredito que este livro me permanecerá por muito tempo na memória, assim como ocorrei com os contos. Ou seja, um autor de deslumbramento não-duradouros. Estante da sala.

Gostei das primeiras –primeiras, mesmo- páginas de A Noite e a Madrugada, de Fernando Namora (Guimarães Editores, Lisboa, 1954), minha primeira incursão pela prosa do português que é um dos preferidos de Saramago. Esta fase lusófona, pelo jeito, vai longe. Vai ser para sempre. ?.

O atraso de LAC nas avaliações dos textos do Araucária me traz dissabores. O prazo de quinze de marco não foi cumprido, e segundo me conta o Nagues, lá de Brasília, já tem gente ‘arrancando os cabelos’. Enviei e-mail esclarecendo o atraso e pedindo desculpas. De qualquer forma, é hora de voltar a mexer com isso.

Há uma semana, fazia frio, Simone estava no trabalho e eu no Pronto-Socorro por conta de um caroço no pescoço que, aliás, permanece até hoje, mesmo após a ingestão diária dos antiinflamatórios receitados pela médica. Menos mal que a dor é quase imperceptível.

Também há uma semana me encontrava com o poeta José Carlos Mendes Brandão e sua esposa Sônia, também ela escritora da melhor qualidade, para um café rápido em Abernéssia. Estavam hospedados em São Bento, e vieram a Campos para conhecer a cidade –que Brandão, por sinal, achou “muito movimentada”, ainda que não se compare com a Bauru onde vivem. Ele foi meu professor de Português no Escholastica Rosa, em Santos, no longínquo ano de 1984 e, por um destes milagres protagonizados pela literatura e pela informática, acabamos por nos reencontrar tantos anos depois. Para mim, se trata de um encontro histórico, uma alegria indizível, ainda mais quando ocorre na mesma semana da visita de Ricciotti e seus meninos, que jantaram conosco em casa. Como diria Violeta Parra, ‘gracias a la vida’.

Simone e suas urgências, na semanal tarefa de faxinar a Casa. Não mais protesto, posto ela já ter dito que gosta. A minha tarefa, de limpar e lavar o quintal –ou ao menos parte dele- cumpro em tempo muito menor, e seguramente me proporciona cansaços maiores.

Cascalho emperrou. Não readquiro a linguagem. Talvez Manoel de Barros ajude.

Chegamos à semana da palestra. Depois, encerra-se a Exposição. Preparar a palestra da Univap e o lançamento do livro, no dia 20. Sai esta semana a nova edição do jornal, com o artigo ‘Escola Não É Clube’. Sem erros ou cortes, I hope so.

Repercute ainda em mim o episódio envolvendo o diretor da Biblioteca. A sensação desagradável de ter descoberto traços de mentira e desfaçatez num homem que aprendi, ao longo do tempo, a admirar pela sabedoria e inteligência. Pena.

Morre Chico Anysio, o maior humorista brasileiro de todos os tempos. Um ator admirável e um raro gênio moderno, que marcou toda uma geração pelos programas na TV. Andou se aventurando brevemente  também pela literatura, sem grandes repercussões. Comparando com o execrável ‘humorismo’ que se pratica hoje em dia, Chico acabou se tornando uma prova de que sim, nós brasileiros, até bem pouco tempo atrás, éramos mais inteligentes. Cearense de Maranguape –cidade que ajudou a inserir no mapa- deixa um legado de talento inquestionável. Ficamos, artisticamente, ainda mais pobres do que já estamos.